27 dezembro 2012

Tipos de relvados e espécies mais utilizadas

De uma forma informal podemos considerar os seguintes tipos de relvados:

  • Relvado ornamental – interessa sobretudo o aspecto e menos o pisoteio. É exigente na drenagem, na rega, no solo e nos cortes;
  • Relvado de lazer e recreio – para amadores e parques públicos mais ou menos pisoteados em que a manutenção deve ser fácil e económica e o relvado adaptado ao tipo de solo, clima e a um pisoteio leve;
  • Relvado para desporto – destinado a superfícies onde ocorram jogos e desportos ao ar livre. Devem ser resistentes ao pisoteio e de regeneração rápida após uso intensivo que os degradem. Devem ter boa drenagem, serem sólidos, resistentes e económicos;
  • Relvado de revestimento – para revestir áreas desprovidas de vegetação, fixar pendentes e reduzir a erosão (pedreiras, áreas degradadas, taludes de auto-estradas, vias férreas, escombreiras, dunas em situações de clima de características atlânticas).

Relativamente às espécies de plantas utilizadas em relvados, são na sua maioria da família Gramineae, esta compreende 700 géneros e 8 a 10 000 espécies, sendo as mais usadas, entre outras, as seguintes:

Agrostis








Este género tem 100 a 200 espécies distribuídas por todas as regiões do mundo, exceptuando a zona tropical, das quais 15 em França.


Todas as espécies apresentam as seguintes características:
  • produção de 15 000 a 20 000 sementes/grama,
  • implantação relativamente lenta,
  • originam um relvado denso de folhagem fina (semelhante ao Lolium perenne),
  • pode ter um corte raso (0,3 cm),
  • tem um comportamento estival e invernal medíocre,
  • apresentam de uma forma global boa resistência às doenças, pese embora uma certa sensibilidade à Gerlachia nivalis (fusariose),
  • tolerância ao pisoteio medíocre.

Agrostis tenuis (A. capillaris)
Espécie originária das regiões temperadas do Hemisfério N, mas também repartida pelo Hemisfério S, vivaz, glabra, que possui rizomas e emite estolhos. As folhas são estreitas.

Agrostis stolonifera
Trata-se de uma espécie das zonas temperadas do Hemisfério N, vivaz, glabra, de folhas largas, com nervura bem marcada e bainha rosa lilás e que emite estolhos. Razoável comportamento invernal. Muito utilizada nos “green” dos campos de golfe.

Cynodon

Cynodon dactylon
Esta espécie, originária de regiões quentes e secas, é vivaz, rizomatosa e emite estolhos. De origem tropical, é espontânea em vários países e combatida como infestante (na agricultura). 
Existem variedades que formam um relvado muito denso e que pode ser cortado raso. Muito resistente às doenças e ao pisoteio, capaz de se manter verde no Verão, mesmo com pouca água. 
Como inconvenientes o facto de ter um grande período de dormência, de Novembro a Abril, e de ter de ser plantada por estolhos nas variedades de boa qualidade, que são estéreis. A espécie, ela própria, forma um relvado medíocre.

Festuca


O género Festuca envolve uma centena de espécies.

Festuca arundinacea
Esta espécie é vivaz, e nas zonas temperadas possui folhas largas, glabras com as bordaduras rugosas e ásperas ao tacto e a base do caule apresenta uma coloração vermelha violácea. Existem dois tipos de cultivares, o europeu e o mediterrânico, os mais utilizados nos relvados, uma vez que esta espécie era sobretudo utilizada como planta forrageira.

Festuca rubra
É também uma espécie vivaz de folhas finas, estreitas e brilhantes, de bordadura finamente ciliada, com a base do limbo peluda. São comercializadas as seguintes 3 subespécies, de implantação lenta, que formam um relvado denso de folhas finas, de crescimento moderado, que podem ser cortadas rasas (de 0.5 a 1 cm) e de comportamento satisfatório à sombra:
  • F. r. ssp. commutata (afihamento), tem um mau comportamento estival em condições de secura, médio a mau comportamento ao pisoteio e uma boa resistência às diferentes doenças, embora uma certa sensibilidade à Laetisaria fuciformis (“fil rouge”) e à Puccinia graminis (ferrugem negra).
  • F. r. ssp. trychophylla (rizomas curtos e estolhos) (semi-rastejante), permanece com bom aspecto mesmo em períodos de seca no Verão, desde que não exceda um mês. No Inverno tem um bom comportamento, embora tenha uma certa sensibilidade à Helminthosporiose. É mais tolerante do que a anterior ao pisoteio.
  • F.r. ssp. rubra (rizomas compridos e estolhos) (rastejante) tem um aspecto, no período estival, intermédio entre os dois anteriores, mas em casos de seca prolongada é a que se comporta menos mal. É a que tem pior comportamento em relação ao pisoteio. Em termos de qualidade de relvado é geralmente inferior às duas anteriores. Manifesta sensibilidade ao “fil rouge” e à Helminthosporiose mas é resistente à ferrugem negra.

Festuca ovina
Espécie vivaz produtora de folhas muito finas sendo a mais interessante para ser utilizada em relvados por questões de custo. Existem 2 subespécies:
  • F. ovina ssp. duriuscula
  • F. ovina ssp. tenuifolia
Características da espécie e das duas subespécies:
  • uma implantação lenta e difícil, de folhagem muito fina, de crescimento fraco, mas que podem subsistir em condições de solo e de clima difíceis;
  • médio comportamento invernal e estival;
  • resistência muito satisfatória às doenças excepto à Helminthosporiose;
  • má resistência ao pisoteio o que a torna contra-indicada para relvados desportivos.

Lolium


O género Lolium compreende 40 espécies disseminadas na Euroásia e África do Norte.

Lolium perenne
É uma espécie vivaz e uma das mais utilizadas face à sua:
  • grande facilidade de implantação em todas as estações do ano;
  • boa tolerância ao pisoteio, que fazem dela a espécie base de um relvado a ser usado intensivamente.
Existem 2 doenças que atacam esta espécie:
  • Puccinia coronata (“rouille coronnée”) sobretudo no Verão, não é uma doença grave, salvo o seu aspecto estético;
  • Laetisaria fuciformis (“fil rouge”) presente sobretudo quando o relvado se encontra numa situação desfavorável (nutrição azotada insuficiente ou desequilibrada) qualquer que seja a estação. É uma doença muito mais grave que a anterior, pois em caso de ataque importante o relvado pode desaparecer e os meios de luta são ainda insuficientes.

Phleum


Phleum bulbosa (P. Bertolonii)
Espécie da parte temperada do Hemisfério N, vivaz, que emite estolhos, glabra, com folhas largas, moles, de cor verde acinzentada clara. Possui um bolbo muito pronunciado na base do caule.
Esta espécie é mais utilizada que o Phleum pratense, por ter a folhagem mais fina, mais densa e ser de crescimento mais lento. Produz muito poucas sementes.
Das espécies utilizadas em relvado esta é a mais perene:
  • fácil de implantação;
  • bom aspecto invernal;
  • boa tolerância ao pisoteio e às doenças;
  • porém tem um aspecto estival medíocre em períodos de seca e ou de calor (dormência), preferindo os solos bem drenados;
  • muito utilizada em relvados desportivos.

Phleum pratense
Trata-se de uma espécie originária da parte temperada do Hemisfério N, vivaz, de folhas mais largas do que a espécie anterior, moles e de cor verde pálido fosco. Acomoda-se a situações húmidas.

Poa


O género Poa engloba 250 a 300 espécies, consoante os autores, das quais 23 ocorrem em França.

Poa pratensis
Originária do Hemisfério N, esta espécie é vivaz, rizomatosa, com folhas mais ou menos largas, glabras e as extremidades terminam em forma de proa de barco. De cada lado do limbo há 2 linhas paralelas.
Esta espécie tem uma implantação difícil, recomendando-se a sua sementeira no fim da Primavera e no Verão. Proporciona um relvado relativamente denso, de folhagem grosseira e de crescimento fraco.
Os comportamentos estival e invernal, bem como a resistência às doenças e ao pisoteio varia com os cultivares.
A característica mais favorável a reter diz respeito à tolerância ao arranque, o que justificará a sua utilização em relvados desportivos.
A Poa pratensis é uma boa espécie para a zona mediterrânica, se fôr regada.

Pennisetum


Pennisetum clandestinum
Trata-se de uma espécie sub-tropical, com propagação fácil e usualmente por estolhos e tem um crescimento muito rápido, “fechando” mais depressa do que o relvado de escalracho. As folhas e os caules têm uma coloração verde mais clara do que o escalracho (Stenotaphrum secundatum). É pouco conhecida e por isso pouco divulgada.
Exige uma rega mais frequente do que o escalracho mas não tem a maior parte das desvantagens deste.

Stenotaphrum


Stenotaphrum secundatum
É uma planta sub-tropical e que só deve ser plantada a partir de Março-Abril; no Norte do país, só mais tarde. Propaga-se por estolhos superficiais e para se obterem folhas mais estreitas temos de a aparar frequentemente. São preferencialmente os estolhos com cerca de 15-20 cm de comprimento que se devem usar para plantar.
Vantagens:
  • resiste bem à seca;
  • resistente à salsugem.
Inconvenientes:
  • exige muita mão de obra (plantação manual) o que fica caro;
  • necessita de mondas nos primeiros 3 – 4 meses até “fechar” completamente;
  • é afectado pelas geadas, ficando com um tom acastanhado;
  • se houver descuido nos cortes e o escalracho crescer muito, depois de cortado fica esbranquiçado e, posteriormente, acastanhado devido à queima dos tecidos pelos raios solares;
  • é invasor, entrando em concorrência com as plantas vizinhas (herbáceas e arbustos);
  • possui raízes fortes capazes de levantar as lajes e os lancis dos caminhos ao fim de algum tempo de instalado;
  • as folhas provocam pequenos cortes na pele das pessoas.

Utilização e Misturas

Actualmente utilizam-se misturas de espécies para obter um bom relvado. 
As espécies são escolhidas em função do tipo de:
  • utilização;
  • clima;
  • solo.

Actualmente 85% da quantidade de sementes comercializadas pertencem às seguintes espécies:
  • Lolium perenne 40%
  • Festuca rubra 30%
  • Poa pratensis 15%
  • Festuca arundinacea 5%
  • Festuca ovina 4%
  • Agrostis tenuis 3%

Há alguns anos atrás era costume utilizarem-se misturas de 6 a 10 espécies. Actualmente utilizam-se apenas 2 a 4 espécies diferentes sobretudo para evitar que as espécies tenham comportamentos muito diferentes como a velocidade de germinação, implantação e crescimento.

Outros objectivos que pesam na escolha das espécies de um relvado:
  • estéticos;
  • resistência ao pisoteio;
  • económicos (baixa manutenção).



Relvado ornamental
Essencialmente de motivação estética, relvado denso e cortes rasos:

mistura A 
Festuca rubra commutata 33%
Festuca rubra trycophylla 33%
Festuca ovina 34%

mistura B 
Agrostis tenuis 5-10%
Festuca rubra 90-95%

mistura C 
Festuca rubra 66%
Lolium perenne 34%

Relvados de jardins privados
É o tipo de relvado mais utilizado nos jardins privados em que as motivações são sobretudo de ordem estética e utilitária:

mistura A 
Lolium perenne 50%
Festuca rubra 50%

mistura B 
Lolium perenne 33%
Festuca rubra 33%
Poa pratensis 34%

mistura C 
Festuca rubra 33%
Festuca ovina 33%
Poa pratensis 34%

mistura D (zona mediterrânica)
Festuca arundinacea 60%
Poa pratensis 40%

Relvados para jardins públicos

mistura A 
Lolium perenne 40%
Poa pratensis 60%

mistura B 
Lolium perenne 20%
Festuca arundinacea 80%

mistura C 
Festuca arundinacea 60%
Poa pratensis 40%

mistura D (região mediterrânica)
Cynodon dactylon 50%
Poa pratensis 50%

mistura E (região mediterrânica)
Cynodon dactylon 40%
Festuca arundinacea 60%

Relvado para campos desportivos
As espécies utilizadas devem possuir resistência ao pisoteio e ao arranque:

mistura A 
Lolium perenne 33%
Poa pratensis 67%

mistura B (região mediterrânica)
Festuca arundinacea 60%
Poa pratensis 40%

“Relvado” para estabilização de taludes
Não se pode falar propriamente de um relvado uma vez que a manutenção não envolve nem corte nem fertilização, mas sim o revestimento vegetal (taludes de autoestrada, de estrada, etc.) É desejável recorrer, além de espécies da família das Gramineae, a géneros da família Leguminosae (Trifolium, Medicago, Coronilla, Spartium, Retama, Ononis, etc.).

mistura para áreas muito declivosas
Bromus sp.
Lolium multiflorum

mistura para áreas pouco declivosas
Agrostis sp.
Festuca sp.

  • SOCIÉTÉ FRANÇAISE DES GAZONS, 1990. L’Encyclopedie des Gazons. Éditions S.E.P.S.
  • LECOQ, N., 2012. Vegetação no Espaço Urbano. ISA

Sem comentários:

Enviar um comentário